Alíquota-teste 2026: CBS e IBS, o que fazer agora
Em 2026 começa a alíquota-teste de 0,9% CBS + 0,1% IBS. Entenda por que ela existe, como é compensável e o checklist do que fazer já no seu ERP.
Luis Felipe Miléo
A Reforma Tributária do consumo (EC 132/2023, regulamentada pela LC 214/2025) tem um cronograma longo, mas existe uma data que não pode ser tratada como futuro distante: 2026, o ano da alíquota-teste. Para quem ainda enxerga a Reforma como “problema de 2033”, esse é o sinal de que o relógio já começou a correr — e que o trabalho pesado de adequação de sistemas precisa estar resolvido antes, não durante.
Este post foca exclusivamente na ação urgente de 2026. Para o panorama completo das três siglas e do cronograma, veja o overview da Reforma Tributária 2026.
O que é a alíquota-teste
Em 2026, a CBS (tributo federal que substitui PIS/COFINS e parte do IPI) e o IBS (que substitui ICMS estadual e ISS municipal) entram em vigor em uma fase de testes com alíquotas simbólicas: 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS, conforme previsto na LC 214/2025. São percentuais baixos de propósito — o objetivo não é arrecadar, é exercitar o sistema.
O ponto crucial: nesse período de teste, o valor apurado dessas novas contribuições é compensável com o PIS/COFINS devido no mesmo período. Na prática, para a maioria das empresas, 2026 não deve representar aumento real de carga tributária — é um ensaio com efeito caixa neutralizado pela compensação. Mas “neutro no caixa” não significa “neutro no trabalho”: a empresa precisa emitir documentos fiscais com os novos campos, apurar os novos tributos e entregar as obrigações acessórias correspondentes.
Por que ela existe
A alíquota-teste cumpre dois papéis que valem ser entendidos por gestores e contadores:
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Forçar a emissão da nova nota. Com CBS e IBS aparecendo no documento fiscal, todo o ecossistema — emissores, ERPs, SEFAZ, o futuro Comitê Gestor do IBS — é obrigado a operar os novos layouts de NF-e, NFC-e e NFS-e em produção real, com volume real. É um teste de estresse coletivo antes da virada definitiva.
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Calibrar alíquotas e classificações. A arrecadação simbólica gera dados concretos sobre bases de cálculo, créditos e segmentos. Esses números alimentam a definição das alíquotas de referência que valerão quando a CBS ficar cheia (e o PIS/COFINS for extinto) e quando o IBS começar a subir. É a fase em que o governo “mede antes de cortar”.
Para a empresa, a leitura prática é: 2026 é o ano em que os erros de cadastro e de parametrização aparecem com baixo custo financeiro. Quem usar esse ano para descobrir que seus produtos estão mal classificados sai na frente de quem só vai descobrir em 2027, com a CBS cheia.
Checklist do que fazer já em 2026
A adequação não é um botão que se liga na virada do ano. É um conjunto de frentes que precisam estar prontas antes:
1. Revisar a classificação de itens
Cada produto e serviço precisa estar corretamente associado a NCM, e os serviços à sua natureza correta. A Reforma traz regimes diferenciados e específicos para certos setores, e a alíquota efetiva do IBS/CBS dependerá dessa classificação. Item mal classificado em 2026 = tributo errado calculado na nota.
2. Cadastrar os novos tributos no ERP
No Odoo com a localização OCA, o modelo l10n_br_fiscal.tax é genérico por design — ele não foi escrito “para ICMS” ou “para PIS”, mas para representar tributos de forma abstrata. Isso significa que a CBS e o IBS entram como novos cadastros de tributo, com suas próprias regras de cálculo, sem reescrever o motor fiscal. A comunidade OCA tem PRs ativos justamente para entregar esses cadastros e o motor de cálculo com não-cumulatividade ampla.
3. Garantir o ERP pronto para emitir os novos layouts
NF-e, NFC-e e NFS-e ganham campos para CBS e IBS. O sistema precisa não só calcular, mas transmitir e validar o documento com esses campos preenchidos. Isso depende de atualização do layout de transmissão — outra frente em andamento na localização OCA.
4. Preparar a apuração paralela
Durante todo o período de transição (aproximadamente sete anos), o ERP vai calcular dois sistemas em paralelo: o atual (ICMS/ISS/PIS/COFINS, reduzindo gradualmente) e o novo (IBS/CBS, crescendo). Em 2026 isso já começa com a compensação CBS/IBS contra PIS/COFINS. A reconciliação contábil dessa dupla apuração precisa estar desenhada.
5. Treinar o time fiscal e contábil
Os conceitos mudam: crédito amplo, não-cumulatividade plena, débito/crédito por operação. Quem opera a nota e fecha a apuração precisa entender a lógica nova — não só clicar nos campos.
| Frente | Status mínimo desejável em 2026 |
|---|---|
| Classificação de itens (NCM/serviços) | Revisada e validada |
| Cadastro de CBS/IBS no ERP | Implantado e testado |
| Layout NF-e/NFC-e/NFS-e | Atualizado para emitir os novos campos |
| Apuração paralela + compensação | Desenhada e conciliando |
| Capacitação do time | Em andamento |
A vantagem de quem tem código no upstream
Vale um ponto sobre dependência de fornecedor. Quem confia a localização fiscal a um produto fechado ou a um fork privado depende de um único fornecedor decidir entregar a adequação da Reforma no prazo. Com a localização upstream da OCA, a adequação é construída por uma comunidade com múltiplos mantenedores ativos — a KMEE entre as mantenedoras principais — e fica disponível para qualquer empresa que use a base. Trocar de integradora, se necessário, vira decisão comercial, não drama técnico. Em uma transição de sete anos, essa portabilidade é seguro contra ficar desamparado no meio do caminho.
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Sobre o autor
Luis Felipe Miléo
Desenvolvedor Odoo · KMEE
Desenvolvedor especializado em localização fiscal e projetos open source no ecossistema Odoo/OCA, com foco em integrações para o mercado latino-americano.
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